quarta-feira, 27 de maio de 2015

‘QUOUSQUE TANDEM’...?

‘Quousque tandem’...?

1. Não foram precisos seis meses para que o Governo do Syriza, a golpes de inépcia, arrogância e irresponsabilidade, mostrasse como se afunda económica e financeiramente um país, colocando a Grécia de novo à beira da bancarrota.
O novo Governo grego herdou uma situação socialmente muito penosa - mercê da profunda recessão económica, do desemprego, da perda de rendimentos - mas esperançosa no plano económico e financeiro. No ano de 2014, pela primeira vez desde o "resgate" do país em 2010, a Grécia experimentava crescimento económico, diminuição do desemprego, saldo orçamental primário positivo, redução dos juros implícitos da dívida externa, perspetivas de regresso aos mercados da dívida e de saída do programa de assistência com a ‘troika', se cumpridas as obrigações em falta, mediante um "programa cautelar" de segurança. 
As perspetivas para 2015 eram otimistas em todas estas variáveis. O próprio Governo Syriza projetou o crescimento para 2,5%, superior ao de Portugal. Tudo se esvaiu em poucos meses. A economia começou a patinar, o país voltou a entrar em recessão, em contraciclo com o resto da Europa, e as previsões de crescimento caíram dramaticamente, oscilando agora entre zero e 0,5%. A cobrança de impostos caiu substancialmente e a retirada de fundos dos bancos não cessou desde então. Os juros implícitos da dívida voltaram a subir.
Recusando as condições mínimas para o encerramento do programa de assistência (de modo a receber a última fatia do resgate), excluída dos mercados da dívida e com a cobrança de impostos a descer, a Grécia aproxima-se do fim da linha.
2. A rápida degradação da situação económica e financeira da Grécia não facilita uma saída airosa. É evidente que, se Atenas recusa os necessários compromissos de disciplina orçamental, as três instituições financiadoras (FMI, BCE e Comissão Europeia) não estão disponíveis nem para desembolsar o que resta do plano de resgate ainda em aberto nem para assegurar a assistência financeira posterior, de que o país vai continuar a precisar.
Como ontem afirmava o ministro das finanças francês M. Sapin, "não podemos financiar mais défices da Grécia; não há um único governo na Europa que possa chegar ao seu parlamento ou aos seus eleitores e pedir-lhes que continue a financiar o desequilíbrio orçamental da Grécia". Atenas vai ter de gastar menos do que arrecada (ou vice-versa), assegurando um razoável saldo orçamental primário.
Mantendo o desplante político de que desde o início usa e abusa, o Governo grego ameaça que se entrar em bancarrota será uma catástrofe para a Grécia mas também o princípio do fim da união monetária. É tempo de pôr termo a esta chantagem. O que ameaça a estabilidade, a credibilidade e a integridade da união monetária é manter a todo o custo países que se recusam a cumprir as suas regras.
Depois de ter desbaratado a confiança dos financiadores na sua boa-fé negocial, o governo Syriza põe à prova a sua paciência, depois de meses de arrastamento de pseudo-negociações sem resultado palpável. Parafraseando Cícero, a questão é saber até quando a Grécia poderá continuar a abusar da nossa paciência.

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